terça-feira, 2 de setembro de 2014

Monteiro Lobato e o Partido Comunista do Brasil

Do Portal  Vermelho

Por Osvaldo Bertolino
Quando Luis Carlos Prestes foi preso, após liderar a insurreição de 1935 à frente da Aliança Nacional Libertadora (ANL), Monteiro Lobato estava em franca pregação pretolífera, mostrando que os males do país poderiam ser sanados com o enriquecimento do país. Nutria pelo “Cavaleiro da Esperança" grande admiração, embora não o conhecesse pessoalmente. Lobato via em Prestes alguém que poderia matarializar as suas idéias. Para ele, o Brasil precisava de um líder como Prestes para salvar a suwa principal riqueza.w
Na década de 1930, Monteiro Lobato já era famoso pela produção literária e pela luta para provar que o Brasil era rico em petróleo. Segundo ele, no livro O escândalo do petróleo, escrito em 1836, até então o Brasil vivia em regime de compartimentos estanques. A imensa extensão territorial do país e a falta de bons transportes fizeram dos brasileiros serem regionais. Nasciam e morriam em um desses compartimentos e quando alguém desejava viajar corria para a Europa. As coisas começavam a mudar graça ao petróleo. O brasileiro já circulava mais, de automóvel ou de avião, e estava descobrindo o Brasil rapidamente. O país estava se transformando em uma grande coisa. Mas, dizia Lobato, existiam duas visões geológicas: uma paga para “engazopar” o público, outra para o uso interno dos trustes.
Aquele homenzinho de grossas sobrancelhas percorria o país, de Norte a Sul e de Leste a Oeste, pregando patriotismo. “Não temos petróleo? Falta-lhe (ao governo) em olhos o que lhe sobra em traidores vendidos aos interesses estrangeiros”, escreveu. Mas, afirmou Lobato, “havemos de dar olhos ao Brasil”. “Havemos de obrigá-lo a ver, a convencer-se da existência do gigantesco lençol subterrâneo. Se a fé move montanhas, a convicção rompe o seio da terra e arranca de lá os seus tesouros. Não sei, concluí em uma das minhas pregações, que sacrifício eu não faça para ver meu país arrancado à miséria crônica e elevado ao poder e à riqueza pela força mágica do maravilhoso sangue negro da terra”, asseverou.
Sem papas na língua
Impulsionado por essa idéia, em 5 de maio de 1940 ele escreveu uma carta ao presidente Getúlio Vargas expondo o que considerava a verdade sobre o problema do petróleo no Brasil. “O petróleo! Nunca o problema teve tanta importância; e se com a maior energia e urgência, o senhor não toma a si a solução do caso, arrepender-se-á amargamente um dia, e deixará de assinalar a sua passagem pelo governo com a realização da Grande Coisa. Eu vivi demais esse assunto. No livro O escândalo do petróleo denunciei à nação o crime que se cometia contra ela — e com a maior dor de coração vejo hoje que o oficialismo persiste neste crime, e agora armado de uma arma que não existia antes: o monstruoso tanque chamado ‘Conselho Nacional do Petróleo’. Doutor Getúlio, pelo amor de Deus, ponha de lado a sua displicência e ouça a voz de Jeremias. Medite por si mesmo no que está se passando. Tenho certeza de que se assim o fizer, tudo mudará e o pobre Brasil não será crucificado mais uma vez”, escreveu no início da carta.
Três meses depois, Lobato recebeu um emissário do presidente com um convite para que ele dirigisse um “Ministério de Propaganda”, que substituiria o “Departamento de Imprensa e Propaganda”, o famoso DIP. “Qual a finalidade do Ministério?”, indagou. “Ora, fazer propaganda do Brasil lá fora, a fim de atrairmos capitais estrangeiros”, respondeu o enviado de Getúlio. “Mas para isso não é preciso criar-se um Ministério. Basta constitucionalizar o país. Você acha que o capitalista estrangeiro, homem sabido, conhecedor profundo do mundo de negócios e de todas as nossas mazelas, irá inverter o seu dinheiro aqui, em nossa terra, unicamente por ter lido uns artigos meus de propaganda? Vamos mudar de assunto porque este não resiste nem sequer a uma pequena discussão”, retrucou.
Getúlio insistiu na idéia e chegou a convidar Lobato para um banquete na cidade de Campinas. Havia um lugar para ele ao lado do presidente da República, disse o emissário de Getúlio. O escritor respondeu que não era homem para banquete. Em 20 de março de 1940, às 14h30, Lobato foi procurado por dois investigadores de polícia, que lhe entregaram em mãos um mandado de prisão preventiva. Dali saiu escoltado como um criminoso vulgar para o velho casarão da Avenida Tiradentes, em São Paulo, Casa de Detenção e presídio político, onde ficou preso e incomunicável. Em 8 de abril, ocorreu o julgamento da prisão preventiva.
Lobato encarou a prisão como um grave sinal do que ocorria no país. Aos que o visitavam, deixava mensagens sarcásticas e irônicas. “Como tenho pena de vocês lá fora! Enquanto inúmeras preocupações os atormentam, eu aqui não tenho nenhuma. Tudo pago! Não tenho medo de ladrões, nem de assassinos, e o que mais importa: não tenho receio de ser preso”, disse certa vez. Quando lhe falavam em anistia, reagia com protesto. Não queria a anistia para ele, e sim para os presos políticos que ali, e nas inúmeras prisões do país, vegetavam pelo crime único de terem idéias e de por elas terem combatido. Dizia que quando saísse da prisão daria petróleo “a essa infame terra”. “Precisamos de muito petróleo para fazer uma imensa fogueira e assar esses tribunais de exceção”, protestou.
Sem papas na língua, dirigiu ao interventor paulista Fernando Costa um pedido de emprego para um ex-presidiário. Depois de enumerar todo o rol de crimes de que o candidato era acusado, tascou: “Vê o amigo que ele poderá ser muito útil ao Estado Novo.”  O saci endiabrado que havia em Monteiro Lobato fez ele escrever uma carta ao general Júlio Horta Medrado Dias, presidente do “Conselho Nacional do Petróleo” — segundo o escritor o mandante da sua prisão —, repleta de passagens hilárias. “Bendito seja esse benemérito general, murmurei comigo ao ter conhecimento de que fora por sugestão dele que o Tribunal me prendia, isto é, me proporcionava a realização do velho sonho”, escreveu.
Má pontaria
A ironia atingiu um alto grau de acidez. “Passei nesta prisão, general, dias inolvidáveis, dos quais sempre me lembrarei com a maior saudade. Tive ensejo de observar que a maioria dos detentos é gente de alma mais limpa e nobre do que muita gente de alto bordo que anda solta. E também tive ocasião de receber inúmeras provas de amizade e solidariedade de excelentes amigos que nunca imaginei tivessem por mim tal estima. Fui leal. A todos fiz ver que a realização do meu sonho eu devia a uma pessoa apenas: o general Horta Barbosa, comandante superior do benemérito ‘Conselho Nacional do Petróleo”, provocou. Finalizou com um post-scriptum genial, dizendo que tomava a liberdade de enviar pelo correio “uma caixinha de bombons”, sobrados dos muitos com os que os amigos o obsequiaram. Os sentimentos que o animavam para com seu general benfeitor, disse Lobato, “são doces como esses bombons".
Quatro dias depois de deixar a prisão, Lobato enviou outra carta a Getúlio. “Atirei no petróleo e acertei na cadeia, o que prova bem má pontaria”, ironizou. Em seguida, mandou nova carta ao presidente, na véspera do aniversário dele. “Amanhã é dia de seus anos. Quero dar-lhe um presente. Esse presente é uma idéia. Essa idéia é a seguinte. Assim como o governo formou a Companhia Nacional Siderúrgica com 500 mil contos de capital, por que não funda também a Companhia Nacional de Petróleo, com outros 500 mil contos de capital? Era o meio de ao mesmo tempo resolver os problemas do ferro e do petróleo, de igual importância”, escreveu. Ao contrário da primeira carta, escrita em caráter sigiloso, as demais Lobato mandou mimeografá-las e distribuí-las.
Aos que lhe pediam cautela, respondia: “Sou visceralmente imprudente e os anos não têm me modificado nisso. Os homens prudentes não sabem as delícias da imprudência.” Por motivos políticos ou pessoais, o Tribunal de Segurança Nacional (TSN) condenou Lobato a seis meses de prisão e ele voltou para a cadeia.
Idéias comunistas
Na prisão, ficou na mesma cela com o comunista José Maria Crispim. “Conheci Monteiro Lobato na prisão. Estava eu recolhido a um cubículo do ‘presídio especial’, na Casa de Detenção de São Paulo, sob um odioso regime de incomunicabilidade, quando foi mandado para o mesmo cubículo um homenzinho já grisalho, de face magra e ternosa. Era o grande escritor patrício que ali também estava pagando o crime de ser patriota e amigo do povo”, escreveu Crispim no jornal A Classe Operária. Segundo ele, Lobato havia enviado uma cópia de uma das cartas ao ministro da Guerra do Estado Novo, Góis Monteiro.  
O dirigente do Partido Comunista do Brasil, então PCB, disse que Monteiro Lobato já conhecia as idéias comunistas. “Já estou velho, doente, cansado. Encontrei vocês muito tarde. Se eu fosse mais moço...”, disse o escritor. Assim mesmo, ele trabalhava exaustivamente. De vez em quando, voltava-se para Crispim indagando sobre problemas de interesse nacional e social. Queria conhecer bem as idéias do PCB. Os assuntos giravam sempre em torno do petróleo, da siderurgia, da reforma agrária e da democracia.
À medida que ia se inteirando das linhas gerais da luta dos comunistas, repetia com acenos de aprovação: “Isso mesmo. Vocês têm razão.” Crispim narra que Lobato andava no interior do cubículo, como se falasse consigo mesmo, a meia voz: “A desgraça deste país são os trustes estrangeiros. É incrível como mandam neste Brasil de fazendeiros abastados e reacionários. Fui fazendeiro, filho e neto de fazendeiros. Nunca vi gente tão inimiga do progresso. Para salvar seus domínios, essa gente é capaz de entregar o país aos monopólios estrangeiros. É o que já estão fazendo.” 
Admiração pela União Soviética
No começo de 1945, quando a ditadura já andava enfraquecida, Lobato falou ao repórter Tulman Neto, do jornal Diário de São Paulo. A entrevista foi por escrito — Lobato não confiava nos jornais, que insistiam em publicar “asneiras” atribuídas a ele. Só dava entrevistas redigidas de próprio punho. Certa vez, enviou a seguinte carta ao diretor da Folha da Manhã:
“Por acaso me chegou às mãos um recorte da Folha da Manhã, de 15 do corrente, com um tal telegrama do Rio no qual se transmite uma ‘entrevista’ minha. Li e corei. Desnaturações do pensamento, vulgaridades, chatices. E esta coisa me assombrou: ‘Finalizando, disse Monteiro Lobato: vai melhorar o Brasil. Antigamente só elegiam esses sujeitos ossudos, soturnos, ou bojudos, indivíduos horríveis, mal-encarados, convencidos etc.’ Por mais que eu lesse e relesse o recorte inteiro, fiquei na dúvida sobre a substância que enche a cabeça desse repórter. Venho, pois, declarar que a tolice não é minha; e a tal entrevista desnaturada, é tão chata e vulgar, que a idéia que me vem é a seguinte: o que acima de tudo precisa melhorar no Brasil é a qualidade dos repórteres de seus jornais. Peço ao senhor diretor a inserção desta nota a fim de que meus amigos não fiquem a supor que já estou completamente gagá.”
Na entrevista ao Diário de São Paulo, o escritor foi fundo em suas análises. Depois de criticar a ditadura, ele discorreu sobre o socialismo. Segundo Lobato, Prestes, ainda preso, era um dos maiores brasileiros. “É graças aos comunistas que hoje apodrecem nas cadeias que a realização do sonho socialista se aproxima”, afirmou. Lênin seria o maior reformador de todos tempos, o homem que daria “o seu nome ao século”. Sua admiração pela União Soviética era grande. Afirmou:
“O que a Rússia fez nesta guerra (a Segunda Guerra Mundial), e o que está fazendo na ciência, na educação e em todos os setores da vida humana é o maior dos milagres modernos e essa vitória da experiência russa, meu caro, não pode mais ser oculta aos olhos de todos os países; está aí a crise do mundo. Não há país que vagamente não queira experimentar em sua carne a experiência que o russo fez, a princípio com dor, finalmente com pleno sucesso. E como hão de os privilegiados do mundo — 1% — conter os desejos, os ímpetos, a avalanche dos 99% da humanidade?”, afirmou. Segundo Lobato, a vitória do socialismo era inevitável no mundo inteiro. E acentuou, grifando as palavras, que “idéia perseguida é idéia propagada: perpétua lei do mundo moral, perpetuamente esquecida pelo poder.” Mostrou o exemplo de Prestes, o único homem que no Brasil seduzia milhões de almas.
Estátua para Prestes
A entrevista foi um sucesso. O jornal foi reimpresso uma semana depois para atender aos milhares de pedidos. “Deve ter sido um fato inédito na história da imprensa brasileira. Vários outros jornais reproduziram-na. Em diversas cidades do interior, foi também impressa em folhetos, como resultado de coletas populares, feitas espontaneamente, em demonstrações de entusiasmo pelas palavras corajosas que continha”, disse o repórter Tulman Neto. Com a evolução dos acontecimentos — liberdade para Prestes, fim da guerra e campanhas pela redemocratização do país —, Lobato passou a ser insistentemente procurado para entrevistas. E sempre enaltecia Prestes.
Segundo ele, o principal dirigente comunista brasileiro estava entre os trinta grandes homens do Brasil. No livro Mister Slang e o Brasil — colóquios com o inglês da Tijuca, diz Lobato: “Tomei um bonde e remergulhei-me na cidade dos monumentos e revoltosos, calculando de mim para mim onde iria erguer-se em anos futuros a estátua do Marechal Prestes.” No artigo O padrão, publicado em 1928, ele havia lamentado que o presidente Washington Luis não contemplou seu grandioso plano, pondo no Ministério da Guerra o famoso comandante da “Coluna Invicta”. Em A cegueira naval, ele escreveu que o capitão Prestes, mesmo “nu”, era general. 
Ao saber dos suplícios de Prestes na prisão, Lobato protestou em uma entrevista dizendo que o líder comunista deveria ser candidato a presidente da República. Segundo ele, a grande coisa que a ditadura fez, e pela qual o povo brasileiro devia ser-lhe gratíssimo, fora preparar Prestes “para a sua grande missão por meio de um longuíssimo martírio”.
Silêncio no Pacaembu
Já doente, Lobato não pôde comparecer ao comício do Pacaembu, em 15 de julho de 1945, que homenageou Prestes. Mas fez, de sua residência, por telefone, uma saudação ao líder comunista. Quando sua fala foi anunciada, pediu-se silêncio máximo. A voz grave do escritor foi ouvida no mais absoluto silêncio:
“Tenho como dever saudar Luis Carlos Prestes porque sinceramente vejo nele uma grande esperança para o Brasil. Vejo nele um homem nitidamente marcado pelo destino. Vejo nele o único dos nossos homens que pelos seus atos e pelo amor ao próximo conseguiu elevar-se à altura de símbolo. Símbolo de quê? De uma mudança social. A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores, e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi de miséria silenciosa nos campos e cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança. A nossa ordem social me é pessoalmente muito agradável, mas eu penso em mim mesmo se acaso houvesse nascido esterco. Essa visão da realidade brasileira sempre me preocupou e sempre me estragou a vida. Nada mais lógico, pois, do que meu grande interesse pelo homem que não conheço, mas acompanho desde os tempos em que um punhado de loucos lutava contra todo o poder do governo. E lutava por quê? Com que fim? Pela conquista do poder? Fácil seria isso, como foi para os companheiros que desandaram. Prestes não lutava por. Lutava contra. Contra quê? Contra a nossa ordem social tão conformada com o sistema do mundo dividido em flores e esterco. E pelo fato de sonhar com a grande mudança foi condenado a trinta anos de prisão, como pelo fato de sonhar um sonho semelhante, Jesus foi condenado a morrer na tortura. Os acontecimentos do mundo vieram libertar o nosso homem-símbolo e ei-lo hoje na mais alta posição a que um homem pode erguer-se em um país. Ei-lo na posição de força de amanhã. Na posição do homem que fatalmente será elevado ao poder e lá agirá para que o regime de flores e esterco se transforme em algo mais equitativo e humano.”
Poucos dias depois, Prestes e o dirigente comunista Pedro Pomar acompanharam o poeta chileno Pablo Neruda, que viera ao Brasil especialmente para o comício do Pacaembu, em uma visita a Monteiro Lobato em sua residência. O jornal Tribuna Popular registrou um trecho da conversa de Prestes e Lobato:
Lobato - Capitão, que de melhor e mais útil o senhor viu na União Soviética? Que mais lhe impressionou?
Prestes - Vi muita coisa, mas de uma coisa me convenci: o quanto é difícil construir o socialismo. E mais, que isso só é possível com um poderoso instrumento — o Partido Comunista Bolchevista.
Lobato - Capitão, será que nós podemos construir esse instrumento em nosso país?
Prestes - Temos todas as condições para construir em nosso país um poderoso Partido Comunista.
Lobato - É preciso, é preciso, capitão! 
Além da cortesia, a visita teve o propósito de sondar a disposição do escritor brasileiro para se candidatar a deputado federal. Poucos dias depois, seu nome foi anunciado na chapa apresentada pelo Comitê Estadual paulista do PCB.
Conversar de espacio
Lobato desistiria da candidatura por discordar do apoio do Partido ao governo, que ele chamou de “perdão a Getúlio”. Segundo o escritor, existia também um drama de consciência. Diante da insistência da imprensa em carimbá-lo como comunista, respondeu: “Se tenho tal ou tal idéia, isso é coisa que só diz respeito a mim próprio. Tenho as idéias que quero ou posso ter. Mas serei comunista? Infelizmente, não. Apesar das minhas imensas simpatias pelo comunismo russo, uma questão de consciência me vem impedindo que eu transformasse essa imensa simpatia em adesão perfeita.”
O problema era a sua admiração pelas idéias do economista Henry George. “É que sou georgista. Convenci-me de tal forma da verdade das teorias econômicas de Henry George, que por mais que me esforce não consigo substituí-las pelas de Karl Marx. Admiro a lógica tremenda de Marx, mas minha intuição é que a verdade está com Henry George. E por causa disso não tive a honra de alistar-me ao Partido Comunista, nem pude aceitar o convite de Prestes para figurar na chapa dos candidatos a deputado federal. Não entrei para o Partido, nem para a Câmara, porque seria trair as minhas idéias georgistas. De que maneira ser um perfeito deputado comunista, se eu ponho Henry George acima de Marx? Seria deslealdade acima das minhas forças”, explicou.
Mas confirmou que continuava admirando Prestes. “Sim. Admiro esse homem desde os tempos da Coluna, quando era perseguido pelas tropas de Bernardes. Acho-o admirável, um grande chefe de homens, uma grande força social, perfeito como caráter e de insuperável energia. Fiz dele, desde a ditadura Bernardes, um dos meus poucos ídolos, mas não pude estar com ele quando começou a agir politicamente. Não pude compreendê-lo quando perdoou a Getúlio, o imperdoável. Nem quando mandou o seu eleitorado apoiar Cirilo Júnior, em vez de Plínio Barreto, que era o candidato de honra de São Paulo. Sei que nessas emergências Prestes sufocou o coração para seguir uma linha política ‘realista’ — mas como não aceito o ‘realismo’, não pude estar com ele. Fiquei com o meu velho amigo Henry George”, disse.
Lobato tentaria convencer Prestes a aderir às idéias de Henry George, segundo ele “indispensáveis pontes de transição para futuros ideológicos como que os sonha o comunismo”, mas o "Cavaleiro da Esperança" desconversava. Seria melhor esperar para um encontro em que pudessem “conversar de espacio”, como duas criaturas simples. Ele se lembraria das palavras de Prestes, tempos depois, quando fez autocrítica. Mas manteve a posição contra Getúlio. A sua prisão jamais seria perdoada. “Ora, veja: umas cartinhas sem importância, que poderiam ter ficado sepultadas nas gavetas das secretárias do governo, agora andam por aí fazendo um furor. Eu não pretendia tanto. São uns imbecis, uns idiotas!”, disse Lobato.
Trauma moral
Ele lamentou ter encontrado o PCB já em idade provecta e ressaltou a importância dos comunistas. Disse ter encontrado nos comunistas um mundo novo, que não acreditava poder existir. “Vocês resgataram minha confiança no futuro da humanidade. Vocês estão certos. Por isso são invencíveis. De nada valerão as perseguições e violências dos poderosos. Vocês constituem um movimento vitorioso pela força dos princípios. Nada poderá impedir a transformação do mundo. E vocês são o artífice dessa transformação”, afirmou, completando que se tornara “admirador do único partido honesto que já vi”.
Apesar dos apelos de Prestes, Pedro Pomar, Jorge Amado, Caio Prado Júnior e Artur Neves para que mantivesse a candidatura, Lobato foi irredutível. Na tarde do dia 9 de setembro de 1945, quando Prestes concedeu entrevista coletiva na sede paulista do PCB, na Rua da Glória, o escritor Edgard Cavalheiro — que escreveu uma farta biografia do escritor — entregou-lhe uma carta. Nela estavam as razões da irredutibilidade de Lobato. “Venho pedir a eliminação do meu nome da lista dos candidatos a deputado pelo PCB. O meu precário estado de saúde impede-me ser, nessa falange, o que cumpre a todos: capaz, ativo, militante. Um Partido tão novo e saudável não pode começar a sua vida de parlamento com uma deficiência na primeira linha de combate. Para as grandes lutas requerem-se guerreiros em perfeita forma. Com a maior cordialidade, abraça-o o amigo e companheiro de ideais”, escreveu.
Depois da prisão, Lobato começou a adoecer rapidamente. Sentia cólicas de fígado, segundo um médico que o atendeu consequência de “trauma moral”. Passou a desenvolver também uma espécie de asma. Foi diagnosticado um cisto no pulmão. A solução seria uma intervenção cirúrgica. No leito do hospital, escreveu a carta para Prestes pedindo a eliminação do seu nome da lista de candidatos do PCB. Datada de 7 de setembro de 1945, foi escrita em duas vias para que uma fosse entregue à imprensa. Com a divulgação da sua posição, a desistência estaria consumada, evitando que seus amigos voltassem a insistir para que a revisse. “Não sirvo para deputado e não quero debater com tão bons amigos”, disse. 
Cartas de Lobato e Prestes
Na autocrítica sobre a posição do PCB de se aproximar de Getúlio, em carta de 2 de fevereiro de 1947 enviada a Prestes da Argentina, Lobato disse:
“Permita que me dirija ao grande chefe com a mesma simplicidade com que a ele me dirigia quando cá esteve exilado, ao tempo da perseguição. Nunca tivemos (nem espero que tenhamos) ensejo de conversar ‘de espacio’ como duas simples criaturas humanas capazes de idealismo. Mas estou perto do fim e não quero ir-me sem falar com quem me encontrei na vida e o mais corajoso de todos. Quando depois de oito anos de incomunicabilidade carcerária o amigo saiu e, dentro da apoteose com que o recebemos, cometeu o erro de aceitar Getúlio — malandro que realizou a mais enervante e cansativa ditadura da América — um véu de melancolia desceu sobre os corações sinceros. E eu, mero contemplador da vida, estranhei que o grande general brasileiro, ‘o único que mesmo nu continuava general’, cometesse na política semelhante erro estratégico. Tomar em consideração uma fruta bichada e já em início de apodrecimento, foi fato que a mim mesmo só pude explicar como a momentânea cegueira de um enterrado vivo que súbito emerge da escuridão para a plena luz do sol. Mas fiquei na dúvida. Ter-me-ia iludido com meu herói? As águas correm. O incidente ‘Brasil-Rússia’ sobrevém e Prestes se afirma como um homem de coragem sobre-humana. Ainda ontem, recordando em conversa com Roger Pla a façanha, escabichamos na história um exemplo de coragem moral daquele vulto — e não o encontramos (...). Entre manter-se fiel a si mesmo e cortejar a avalanche esmagadora que podia desabar sobre ele, Prestes não vacilou, a avalanche despeja — mas vai pelo mesmo caminho se transformando em espanto e admiração. E Prestes emerge do incidente maior do que nunca. As águas continuam a correr. Chega o dia das novas eleições. Até o céu e o inferno são mobilizados pelos cardeais contra os seguidores de Prestes — mas o antigo estrategista militar se revela estrategista político de igual valor, e vence. E conquista uma vitória tríplice: 1) enterra o ditador que tentava ressuscitar, 2) dá xeque-mate na intromissão do clero na política, 3) desvanece para sempre o fantasma PRP. Minha velha admiração por Prestes ressurge — aumentada. Era bem o homem que eu queria. De coragem moral absoluta e capaz na política de vencer o número por meio de hábeis golpes estratégicos. Sinto-me hoje grandemente feliz com a volta de meu ídolo ao velho nicho; e mais feliz ainda sentirei, se o grande líder der apoio ao Adhemar para a implantação em São Paulo das idéias de Henry George — essa indispensável ponta de transição para futuros avanços ideológicos como os sonham os comunistas. Eis explicado, meu caro capitão, o motivo desta carta e do abraço de parabéns que aqui deste repouso manda o seu amigo Monteiro Lobato.”
Prestes respondeu:
“Sua carta de 2 do corrente trouxe-me grande satisfação, não só pelo carinho e bondade de suas expressões, como também pela explicação que me dá da atitude sua para conosco — pobres políticos de carne e osso, que nem sempre podem fazer o que desejariam seus impulsos e sentimentos pessoais, obrigados que somos por convicção, profunda e científica, de que muito acima de nossos sentimentos e paixões estão os  interesses do proletariado, da classe historicamente destinada a enterrar para todo o sempre esta fase da pré-história da humanidade em que vivemos, da exploração do homem pelo homem. Compreendo, agora, que não foi propriamente por culpa nossa que você nos abandonou e folgo imensamente por vê-lo a nos aplaudir num momento como este, em que tão necessário para prosseguirmos vencendo os obstáculos que se sucedem em nossa marcha é o seu aplauso de patriota, sincero, de homem independente e de artista de verdade. Suas palavras sobre o que denomina de incidente ‘Brasil-Rússia’, sobre a nossa posição diante da guerra imperialista, servirão — e muito — para desmascarar os lacaios do imperialismo aqui em nossa terra, e ajudarão, sem dúvida, aos intelectuais honestos, mas em geral ainda tão atrasados e equivocados, a encontrar o verdadeiro caminho do patriotismo, o caminho de Lênin, de Barbusse e Romain Rolland. Quanto às idéias de Henry George, que lhe poderei dizer? Será melhor esperarmos pelo encontro em que possamos ‘conversar de espacio como duas simples criaturas’. Afirmo-lhe somente que apoiaremos com entusiasmo todas as medidas efetivamente progressistas que venham a ser tomadas pelo senhor Adhemar de Barros no governo de São Paulo. Se entre elas estiver a implantação das idéias de Henry George, tanto melhor, porque será satisfeito o seu apelo. Assusta-me somente essa situação de ídolo, e que se prolongue por muito tempo. A residência incômoda no nicho a que me destina.”
História do Rei Vesgo
Prestes divulgou a carta de Lobato como instrumento da luta política contra os golpes que os comunistas sofriam. Em uma carta ao amigo Artur Neves, Lobato declarou: “Se eu admitisse a hipótese de que o Prestes iria tornar pública a minha carta, teria escrito coisa mais decente. Enfim...” O PCB já estava com seu registro cassado e começava a campanha contra a cassação dos mandatos comunistas. Em comício realizado em São Paulo, em junho de 1947, quando os dirigentes comunistas Pedro Pomar e João Amazonas discursaram, foi lida a parábola “História do Rei Vesgo”, escrita por Lobato especialmente para o evento.
O povo ouviu:
“Na frente do palácio de certo Rei do Oriente havia um morro que lhe estragava o prazer. Esse Rei, apesar de ser vesgo, tinha uma grande vontade de "dominar a paisagem"; vontade tão grande que ele não pôde resistir, e lá um belo dia resolveu secretamente arrasar o morro. Tratava-se, porém, de um morro sagrado, chamado o Morro da Democracia, e defendido pelas leis básicas do reino. Nem essas leis, nem o povo jamais consentiriam em sua demolição, porque era justamente o obstáculo que limitava o poder do Rei. Sem ele o Rei dominaria ditatorialmente a paisagem, o que todos tinham como um grande mal. Mas aquele Rei, que além de vesgo era malandro, tanto espremeu os miolos que teve uma ideia. Piscou e chamou uns cavouqueiros, aos quais disse:
— Tirem-me um pouco de terra desse morro, ali há umas touceiras de craguatá espinhento. Se o povo protestar contra a minha mexida no morro, direi que é para destruir o craguatá espinhento; e que se tirei um pouco de terra foi para que não ficasse no chão nem uma raiz ou semente.
Os cavouqueiros arrancaram os pés de craguatá e removeram várias carroças de terra. O povo não protestou; não achou que fosse caso disso. Só alguns ranzinzas murmuraram, ao que os apaziguadores responderam: "Foi muito pequena a quantidade de terra tirada; não fará falta nenhuma".
Vendo que não houve protesto, o Rei, logo depois, deu nova ordem aos cavouqueiros para que arrancassem outro pé de qualquer coisa, mas com terra - ele fazia muita questão de que a planta condenada saísse sempre com um bocadinho de terra... Continuando o povo a não protestar, prosseguiu o Rei por muito tempo naquela política de "extirpação das plantas daninhas do morro", e as foi arrancando, sempre "com terra", até que um dia...
— Que é do morro?
Já não havia morro nenhum no reino. Desaparecera o Morro da Democracia, e o rei pôde, afinal, estender o seu olhar vesgo por todo o país e governá-lo despoticamente - não pelo breve espaço de apenas quinze anos, mas pelo de trinta e tantos, segundo rezam as crônicas históricas.
Isso foi no Oriente. Mas nada impede que aqui aconteça o mesmo, porque também temos o nosso morrinho da Democracia, cheio dessas plantas más que costumam nascer em tais morros. É preciso, pois, que o povo se mantenha sempre vigilante, para que os nossos Reis vesgos não as arranquem "com terra". Do contrário o morro se acaba - e... como é? Ditadura outra vez? Tribunalzinho de Segurança outra vez? Paizinho dos pobres outra vez?
Este comício tem essa significação. É um protesto do povo contra as primeiras carroçadas de terra que o nosso Rei, sob o pretexto de arrancar o craguatá espinhento do Comunismo, tirou do nosso Morro da Democracia. Cesteiro que faz um cesto faz cem. Quem tira uma carroçada de terra tira mil. Se não reagirmos energicamente, um dia estaremos privados do nosso morro e com um terrível soba dominando toda a planície.
E se tal acontecer e esse soba instituir o Relho como instrumento de convicção, será muitíssimo bem feito, porque outra coisa não merece um povo que deixa seus governantes despojarem-se pouco a pouco das suas mais belas conquistas liberais.
O preço da liberdade é uma vigilância barulhenta como a dos gansos do Capitólio.”
Discurso de Pedro Pomar
Logo depois, Caio Prado Júnior foi preso por assinar um manifesto em defesa da autonomia de São Paulo. Em carta ao amigo intelectual comunista de longa data, Lobato escreveu: “Cada ato teu, o eleva mais — e agora vem a maravilha da prisão: preso por ser digno, sincero, honesto, nesta hora de desonestidade, corajoso neste tempo de covardia, limpo neste século de sujeiras.”
Foi um dos seus últimos atos políticos. Lobato morreu no começo de julho de 1948. “Foi um fato doloroso para o povo”, registrou Crispim no jornal A Classe Operária. “Sim, escritor, o homem bom, o amigo do povo morreu. Seu desaparecimento se dá no momento em que crescem as manobras imperialistas visando assaltar nossas reservas petrolíferas”, afirmou. “Os jornais da reação, noticiando o fato doloroso, como velhas carpideiras, apressaram-se em derramar lágrimas de crocodilo. Essa imprensa de aluguel que silenciou na ocasião em que Lobato foi preso e condenado pelo tribunal fascista do Estado Novo e que não protestou quando, recentemente, uma edição de seu último livro, de combate ao latifúndio, ‘Zé Brasil’, foi apreendido pela polícia de São Paulo e de outros Estados, procura falsear o sentido da obra e da vida do grande escritor. Não diz uma palavra sequer sobre a atitude do grande patriota em defesa do nosso petróleo ameaçado pelos trustes imperialistas”, escreveu. “Morreu Lobato em plena batalha antiimperialista. Tombou como um soldado da boa causa, como um guerrilheiro que jamais se rendeu”, completou.
O mesmo jornal publicou a seguinte nota:
Com a morte de MONTEIRO LOBATO, ocorrida nesta semana, não é somente a cultura que perde a sua mais forte e mais autêntica expressão nos dias de hoje. É também o povo brasileiro que se vê desfalcado de uma das mais corajosas figuras do movimento patriótico de libertação nacional. De fato, o que caracterizava MONTEIRO LOBATO, apurando o seu talento e dando uma verdadeira popularidade à sua obra, era o patriotismo conseqüente, a preocupação honesta e constante pelos problemas de nosso povo, pelo progresso de nossa gente. Esse patriotismo é que fez de LOBATO um revolucionário de nossa cultura e, depois, um revolucionário militante, aproximando-o cada vez mais de Prestes e dos comunistas, a cujo partido se filiou com orgulho nos últimos anos de sua existência. E é isso, sem dúvida, o melhor de seu exemplo e a razão de sua grandeza. O seu exemplo é o de que, nos dias de hoje, é impossível se ser patriota, lutar pelo progresso e pela felicidade de nosso povo, pela independência nacional, sem se marchar junto dos comunistas, ao lado dos comunistas, quando não seja dentro de suas fileiras. Lutando contra o atraso semi-feudal de nossa terra, pela exploração de nosso petróleo, pela industrialização nacional, pela liberdade e pela democracia, MONTEIRO LOBATO, filho das classes dominantes, com a sua inteligência, sua cultura e sua corajosa honestidade, teve de encontrar-se com a vanguarda do proletariado, com o Partido de Prestes — aprendendo a admirá-lo e compreendendo-o dentro das próprias prisões. Este encontro com o proletariado e seu Partido deu a LOBATO novos horizontes, libertando-o do ceticismo, do desespero ou do cinismo apodrecido em que se afundam os intelectuais que se confinam no ambiente mesquinho das classes dominantes. Compreendendo isso é que o povo paulista, representando o povo brasileiro, soube prestar no enterro de MONTEIRO LOBATO uma vigorosa consagração à sua memória.”  
O dirigente comunista Pedro Pomar também era um admirador de Lobato, para ele um brasileiro de grande valor. Como deputado, quando ele visitou João Saldanha, que se recuperava de uma doença pulmonar no Sanatório Vicente Aranha, na cidade de São José dos Campos, fez questão de levar Lobato, por quem o famoso jornalista e militante comunista nutria grande admiração. “Estivemos juntos por pouco tempo, mas guardei para sempre a melancolia e a infinita doçura daquele homem”, disse Saldanha. Quando Lobato morreu, em 1948, Pedro Pomar fez um vibrante discurso sobre sua campa em nome dos comunistas brasileiros e de Prestes.
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Editor do Grabois.org.br
www.blogdocarlosmaia.blogspot.com  Carlos Maia

Marina diz que bíblia é referência como a arte ou a cultura

Candidata do PSB afirma que informações divulgadas que ela consulta livro antes de decisões é feita por 'pessoas de má-fé'
Do UOL (pig)

A candidata à Presidência Marina Silva (PSB) disse hoje que a informação divulgada na imprensa de que ela consulta a bíblia antes de tomar decisões importantes faz parte de uma estratégia de "pessoas de má-fé" para rotulá-la como fundamentalista. De acordo com Marina, a bíblia é uma referência para o ser humano assim como é a arte e a literatura. "Uma pessoa que crê tem na bíblia uma referência, assim como tem como referência a arte, a literatura. Às vezes as pessoas podem ter um insight (ideia) assistindo um filme", disse, durante entrevista ao Jornal da Globo exibida na madrugada desta terça-feira.
As declarações de Marina se referem a uma matéria no jornal Folha de S.Paulo desta segunda-feira que afirma que a candidata costuma recorrer a versículos da bíblia em momentos decisórios difíceis. Marina disse que o ser humano tem naturalmente uma subjetividade e que isso é importante para o desenvolvimento das sociedades.
"As pessoas tomam decisões que levam em conta vários aspectos", disse. "O ser humano não é uma unidade pura de alguma coisa, somos seres subjetivos e a subjetividade é uma riqueza interior para qualquer ser humano", afirmou. "Isso (informações da matéria) é uma forma que as pessoas foram construindo para tentar passar a imagem que eu sou fundamentalista, coisas de pessoas de má-fé", disse.
Na entrevista, Marina Silva voltou a explicar que a mudança no seu programa de governo em relação ao casamento de pessoas do mesmo sexo e à energia nuclear se deve a um erro de processo na elaboração do documento. Ela também disse que defende os direitos civis de todos os brasileiros e que repudia qualquer forma de preconceito.
Na área econômica, a candidata do PSB afirmou que, caso seja eleita, vai recuperar o tripé macroeconômico - superávit fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação - para retomar a confiança do investidor no País. Além disso, Marina afirmou que tem um compromisso de não aumentar impostos e que os recursos para a ampliação de programas sociais virão do espaço fiscal adquirido quando o País voltar a crescer.
Energia. Marina disse também que espera que o governo federal realize um reajuste dos preços administrados como uma medida de política de País, deixando de lado o aspecto eleitoral sobre essa questão. "Eu espero que os preços administrados possam ser corrigidos pelo próprio governo", disse a candidata quando perguntada se irá aumentar o preço da gasolina para beneficiar o setor sucroalcooleiro. "Quero que se tenha visão de País, não uma visão apenas voltada para as eleições", afirmou, na entrevista exibida na madrugada desta terça-feira. 
Marina defendeu as diretrizes energéticas que constam no seu programa de governo e falou que não vai ignorar os recursos provenientes do petróleo da camada pré-sal. No entanto, segundo ela, o País precisa avançar além do combustível fóssil e estimular o desenvolvimento de fontes de energia renovável, a exemplo da energia eólica e de biomassa. "Vamos explorar os recursos do pré-sal, mas vamos dar um passo a frente", disse.
Segundo a candidata, os países desenvolvidos desenvolvem suas matrizes energéticas na direção de fontes menos poluentes, mas sem prescindir do petróleo, recurso que ainda não tem um substituto na mesma escala. Marina disse que os recursos do pré-sal são importantes para serem utilizados em áreas prioritárias do País, como educação, saúde e inovação.
A candidata não descartou projetos de hidrelétricas na região amazônica, onde está o maior potencial desse tipo de energia no Brasil. “Se os projetos têm viabilidade econômica, ambiental e social é preciso avançar com eles”, disse. “Mas é preciso investir também em fontes renováveis de energia”, alertou Marina Silva. Ela também afirmou que o País precisa das termoelétricas como fonte de energia auxiliar na matriz brasileira. 

http://estadao.br.msn.com/ultimas-noticias/eleicoes/story.aspx?cp-documentid=265036057

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

CUBA TERÁ UNIÃO HOMOSSEXUAL PERMITIDA POR LEI




Matéria de agosto de 2013

Blog Thonny Hawany

Por Thonny Hawany

Cuba se prepara para definir os direitos de lésbicas, de gays, de bissexuais e de transexuais em seu território, segundo informou à imprensa a sexóloga Mariela Castro, filha do presidente de Cuba, Raúl Castro. Essa é uma notícia que recebo com muita alegria. A Ilha de Fidel, caso sejam confirmadas as palavras de Mariela, surpreenderá o mundo positivamente e em matéria de Direitos Humanos.



Para Mariela Castro, a discriminação não combina com os interesses da Revolução Cubana, tanto por isso, será desenvolvido um trabalho que "demonstra a vontade política do governo cubano para enfrentar a homofobia como forma de discriminação, algo incoerente com o projeto emancipador da Revolução Cubana".



Sobre a possibilidade de os Estados Unidos criticarem a atitude do governo de Cuba na rede mundial de computadores pelo feito, segundo anunciou a sexóloga Mariela, considero pouco provável haja vista ter a Secretária de Estado Americano, Hillary Clinton, anunciado em Genebra, no mês de dezembro, por ocasião das comemorações do Dia Internacional dos Direitos Humanos, a criação de fundo para auxiliar países a descriminarem a homossexualidade dentre outras ações positivas anunciadas no mesmo pacote. Espero que, apesar dos entraves políticos e econômicos existentes entre Cuba e o EUA, este se posicione favoravelmente à humana e louvável atitude daquela. Seria a mais digna atitude de uma país que efetivamente entreou na briga contra a homofobia mundial.





Conforme Mariela, será encaminhada à Assembleia Nacional do Poder Popular um projeto de lei que reconhecerá a união livre entre pessoas do mesmo sexo. A modalidade de união denominada de livre deve ser semelhante ao que conhecemos por união estável, visto que no texto do projeto encaminhado ao Congresso não consta a palavra casamento. Isso já representa um gigantesco passo para os irmãos e irmãs lésbicas, gays, bissexuais e transexuais da Ilha de Fidel Castro. Com a decisão, se favorável, haverá mudanças no Código da Família de Cuba.



Mariela acredita que esse passo significa o primeiro na adoção do que ela mesma chamou de “política de não-discriminação”. Resta então esperarmos para ver o posicionamento do Partido Comunista que se reunirá em conferência .



Cabe salientar que Mariela Castro dirige o Centro Nacional de Educação Sexual de Cuba e que sua luta em favor da aprovação de direitos aos homossexuais não é de hoje. Sua luta vem de longa data e tem ecoado por todos os continentes.



Em face do exposto, podemos afirmar que o mundo olhará diferente para Cuba a partir da concretude dessa decisão. Tratar seu povo com humanidade, com igualdade, com liberdade e respeitar a sua dignidade é o maior de todos os passos para o progresso em todos os aspectos. Estou de olho e deverei acompanhar o progresso desse feito histórico, não só para Cuba, mas para o mundo.



FONTES: Agência Brasil e O Diário de Cuba

www.blogdocarlosmaia.blogspot.com Carlos Maia

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Marina trará recessão e desemprego


Por Umberto Martins, no siteVermelho:

O programa de governo da presidenciável Marina Silva, lançado sexta-feira, 29, soou como música aos ouvidos da oligarquia financeira que comanda a economia brasileira e anda meio ansiosa para derrotar a presidenta Dilma, mas desiludida com o desempenho do tucano Aécio.

A ex-senadora, que concorre pelo PSB (partido com o qual até agora não tinha nenhuma identidade), promete rigor na aplicação do tripé neoliberal que orienta a política econômica, configurada no superávit fiscal, câmbio flutuante e juros altos a pretexto de manter a inflação na meta.

Ajuste fiscal

A plataforma vem sendo comparada à famosa Carta aos Brasileiros de junho de 2002, na qual o ex-presidente Lula, em nome da governabilidade, se comprometeu a respeitar os contratos e manter os fundamentos da política conservadora adotada pelo tucano FHC por orientação do FMI. As condições hoje são outras e as consequências da radicalização do tripé certamente serão mais dramáticas.

Marina, a exemplo do candidato do PSDB, Aécio Neves, está acenando ao poderoso e venerável "mercado" com um ajuste fiscal. Isto não vai resolver os problemas da economia e encaminhar o Brasil para a rota do crescimento sustentável. Embora esta seja a promessa, a experiência aqui e lá fora mostra que os resultados concretos são bem outros.

O exemplo mais recente e presente que temos de ajuste fiscal vem da Europa, traduzido principalmente, embora não só, nas receitas ditadas pelo FMI (em parceria com o Banco Central Europeu e a cúpula da União Europeia - a troika) aos países assolados pela crise da dívida externa, como é o caso da Grécia, Portugal, Irlanda e Chipre.

Recessão e desemprego em massa

Invariavelmente esses ajustes significam recessão econômica, desemprego em massa, cortes dramáticos dos gastos públicos, com demissões de funcionários, e degradação dos serviços públicos, destacadamente em saúde e educação, redução de direitos sociais, retrocesso e sofrimento para os povos.

Também na Europa os governos neoliberais garantiram que esta era a receita para sair da crise, mas o que se seguiu de fato foi o aprofundamento da recessão, uma situação que o economista Bradford DeLong, que foi vice-secretário assistente do Tesouro dos EUA, caracterizou como Grande Depressão.

No Brasil, que já vivenciou coisa parecida na sequência da crise da dívida externa, os efeitos de um novo ajuste fiscal não seriam diferentes. É preciso compreender que se tais ajustes não servem aos interesses da maioria da sociedade e, além disto, obstruem o desenvolvimento nacional, por outro lado eles favorecem os rentistas, parasitas da dívida pública, assegurando-lhes a valorização do capital. Por isto, e só por isto, são defendidos com tanta ênfase pelos economistas e pela mídia a soldo do sistema.

Estado mínimo

Mas não é só com o ajuste fiscal que Marina procura agradar sua nova santidade, o mercado financeiro (que agora parece estar curtindo um relacionamento sério com os evangélicos. O pastor Everaldo, que não tem a mínima chance de se eleger, quer entregar tudo aos grandes capitalistas, inclusive as últimas joias da coroa: Petrobras, BB e CEF).

A candidata do PSB promete independência para o Banco Central, medida de caráter neoliberal que sempre foi condenada pelas forças de esquerda no Brasil e que deixa a autoridade monetária totalmente nas mãos do mercado financeiro. Promete também reduzir o papel e a participação do Estado e dos bancos públicos na economia, ampliando consequentemente o espaço da iniciativa privada.

Contradições e demagogia

Marina lança uma vela a Deus e outra ao demônio ao levantar algumas bandeiras progressistas dos movimentos sociais - como o fim do fator previdenciário e a vinculação de 10% da Receita Corrente Bruta da União ao financiamento da saúde.

Mas aqui adentramos o terreno das contradições e da demagogia. Sabe-se que propostas como o fim do fim do fator previdenciário, 10% da receita da União para a saúde, mais verbas para os municípios, entre outras, não combinam com o ajuste fiscal prometido ao sistema financeiro.

A conta simplesmente não fecha, conforme observou o jornalista José Paulo Kupfer. "Fica a impressão de que, se papel aceita tudo, papel com programas eleitorais aceitam ainda mais. Diante da austeridade fiscal proposta, nem mesmo um crescimento em escala chinesa desde o início de seu governo permitiria fechar a conta".

Economistas de esquerda e lideranças dos movimentos sociais entendem que para contemplar as demandas da classe trabalhadora e do povo será preciso mudar a atual política econômica baseada no tripé neoliberal (câmbio flutuante, superávit fiscal e juros altos) e não aprofundá-la como promete Marina para deleite do sistema financeiro.

A mudança da política econômica defendida pelos movimentos sociais (fim do superávit fiscal primário, controle do câmbio, redução da taxa de juros e taxação das remessas de lucros) impõe limites, senão prejuízos, a banqueiros, rentistas e multinacionais, ou seja, contraria interesses de classe e justamente os poderosos interesses que Marina promete satisfazer.

O programa da presidenciável pelo PSB vai em sentido diametralmente oposto aos interesses do povo brasileiro. É música para os ouvidos da oligarquia financeira nacional e internacional. Perguntar não ofende: será que o presidente do Partido Socialista Brasileiro, Roberto Amaral, concorda com a política econômica neoliberal proposta por Marina?

O pacote reacionário de Marina Silva



Nada é mais antigo e reacionário nessa campanha eleitoral do que as propostas de Marina Silva, do PSB, para “uma nova política”. São seis pontos apresentados no primeiro capítulo do programa de governo divulgado sexta-feira. Cinco deles formam um conjunto de retrocessos democráticos e casuísmos. A agenda da direita está toda lá, do voto distrital ao financiamento privado de campanhas. O sexto ponto, em contradição, copia propostas do PT.

Marina “inova” a agenda da direita com a proposta de só realizar eleições a cada cinco anos, para todos os cargos de uma vez. Nem a ditadura militar calou a voz das urnas por períodos tão longos. É uma ideia típica de quem tem um conceito “gerencial” do Estado e do processo democrático. É como dizer: “Não perturbem o país com eleições de dois em dois anos; isso atrapalha o governo dos bons e dos eficientes”.

As propostas reacionárias da “nova politica” vêm embrulhadas num texto de chavões “modernos”: “Estado e Democracia de Alta Intensidade”. Democracia não combina com adjetivos. Houve um tempo em que o Brasil era uma “democracia relativa”, e não passava de uma ditadura. Democracia é algo substantivo; ou se pratica ou não se pratica. No Brasil, custou vidas, lágrimas e luta. Não é pra brincar.

Assim como o título, o texto é vazado em embromation castiço. Aqui vão as seis propostas da candidata, traduzidas para o mundo real:

Proposta 1: “Unificação do calendário geral das eleições, o fim da reeleição e a adoção dos mandatos de 5 anos”.

Tradução: Fazer menos eleições (e não perturbar o governo dos bons)

Durante 5 anos o eleitorado simplesmente não se pronuncia sobre nada. E de uma só vez troca o executivo em todos os níveis (pois não há reeleição), ao mesmo tempo em que elege vereador, deputado estadual, deputado federal e senador. Nem na ditadura o Brasil passou cinco anos seguidos sem ter eleições em algum nível; sem ouvir a voz das urnas.

A fórmula Marina implica necessariamente em alguma prorrogação de mandatos (dos atuais prefeitos e vereadores, ou dos parlamentares governadores e presidente eleitos este ano). Só a ditadura fez isso, ao prorrogar por dois anos os mandatos de prefeitos e vereadores, quando adiou as eleições municipais de 1980.

O fim da reeleição é hoje uma bandeira do PSDB, que a implantou corrompendo o Congresso em 1997. O argumento para extingui-la é que o governante cuidaria apenas da administração, sem desvirtuá-la com o propósito de buscar a reeleição. E o que o impediria de “desvirtuá-la” para eleger o sucessor? Marketagem reversa de tucano. Demagogia de sonhático.

Proposta 2: “Fortalecimento dos mecanismos de transparência nas doações para campanhas eleitorais”.

Tradução: Financiamento privado de campanhas (inclusive por empresas)

O documento original da campanha (as “Diretrizes” do PSB) dizia que tais mecanismos seriam necessários para “baratear as campanhas”. A expressão grosseira saiu do texto, mas o caráter da proposta não mudou: Marina é contra o financiamento público de campanhas, uma proposta do PT, e a favor das doações de empresas.

O financiamento público de campanha é a proposta mais radical e eficaz para reduzir a influência do poder econômico no processo eleitoral. Marina rejeita doações da indústria bélica e de bebidas, mas não vê problema em ser financiada por um grande banco e por uma indústria de cosméticos com interesses diretos na administração federal.

Em abril deste ano, seis ministros do STF (a maioria) votaram favoravelmente à proibição de doações de empresas. Mesmo com o placar definido, o julgamento foi suspenso por um pedido de vistas de Gilmar Mendes, ministro indicado pelo PSDB, partido que é contra a proibição e contra o financiamento público. O vice de Marina, Beto Albuquerque, também se manifestou em abril contra a proibição.

Ao longo da última década, o TSE vem apertando os mecanismos de controle das campanhas, com as prestações de contas antecipadas e REGISTRO on-line de doações. São esses mecanismos que ameaçam o registro da candidatura do PSB, por não ter declarado à Justiça Eleitoral o uso (Por empréstimo? Doação irregular? Aluguel no fiado?) do avião que caiu em Santos. Antes de propor “mais transparência” seria melhor esclarecer esse caso.

Proposta 3: “Novos critérios na ordem dos eleitos para cargos proporcionais, buscando aproximação da “Verdade Eleitoral”, conceito segundo o qual os candidatos mais votados são os eleitos”.

Tradução: Adotar o Voto Distrital Puro (e despolitizar o Legislativo)

“Verdade Eleitoral” é o nome falso para voto distrital puro, que o programa de Marina não tem coragem de mencionar.

O voto distrital é o único sistema que permite a eleição do candidato mais votado, sem levar em conta a votação de seu partido ou coligação. É o modelo do “ganhador leva tudo”, típico da cultura política dos EUA e matriz de seu Congresso paroquial e reacionário, com representantes altamente vulneráveis ao poder econômico.

É uma proposta francamente despolitizadora, defendida no Brasil pelo PSDB e pela direita. Um retrocesso que rebaixa a disputa politica geral ao nível das questões locais.

O programa da candidata sequer apresenta o argumento (legítimo) dos que defendem o voto distrital: este modelo supostamente aproxima representantes de representados, o que não ocorreria com o voto proporcional, adotado no Brasil..

Proposta 4: “Inscrição de candidaturas avulsas aos cargos proporcionais, mediante requisitos a definir”.

Tradução: Enfraquecer os partidos (e fortalecer candidatos antipolíticos).

Na versão original do programa, as “Diretrizes” do PSB, não estava limitada às eleições proporcionais. Houve um recuo aí. O argumento a favor da candidatura avulsa é “quebrar o monopólio dos partidos na representação política”.

Idealmente, permite a eleição de candidatos apoiados por movimentos e setores sociais. Na prática, favorece candidatos com alta exposição pública, grande poder econômico, ou representantes de “causas”, que hoje se elegem dentro da estrutura partidária. A diferença é que seus votos não contribuiriam mais para a formação do quociente eleitoral dos partidos, não somariam para eleger candidatos menos votados.

A candidatura avulsa existe na maioria dos países, normalmente limitada ao Legislativo. Não é uma ideia antidemocrática em si, mas é uma resposta enganosa e despolitizada à questão da representatividade do Legislativo.

Proposta 5: “Redefinir o tempo de propaganda eleitoral com base em novos critérios, visando a melhorar a representatividade da sociedade brasileira nos parlamentos”.

Tradução: Tratar igualmente os desiguais (e valorizar o mercado de TV).

O critério hoje é: parte do tempo de propaganda eleitoral é distribuída igualmente entre os partidos com funcionamento na Câmara. Ao tempo mínimo de cada um acrescenta-se um tempo proporcional ao tamanho das bancadas e coligações.

Pode-se rediscutir a proporção entre o tempo mínimo e o tempo proporcional ao tamanho das bancadas, mas não há critério mais democrático do que o vigente.

Mudar o critério só pode levar a dois caminhos:

1) Distribuir todo o tempo de acordo com o tamanho das bancadas.

2) Distribuir o tempo em fatias iguais, desde o PPL até o PMDB.

Ambos são menos democráticos que o critério atual, e nenhum deles nos levaria a “melhorar a representatividade da sociedade brasileira nos parlamentos”.

É lícito supor que Marina se incline pelo segundo caminho. Nesse caso, estaria igualando os desiguais, desrespeitando a representatividade conquistada por cada partido nas urnas. O PT, que é o alvo implícito da proposta, já foi um partido pequeno, com pouco tempo de TV, da mesma forma que DEM e PSDB foram grandes um dia. Quem definiu o tamanho das bancadas atuais foi o eleitor.

Na prática, a proposta beneficiaria as pequenas legendas, tanto as ideológicas quanto as legendas de aluguel, que teriam seu capital muito valorizado.

Em Português dos tempos da luta contra a ditadura: é um casuísmo.

Proposta 6: “Permitir a convocação de plebiscitos e referendos pelo povo e facilitar a iniciativa popular de leis, mediante a redução de assinaturas necessárias e da possibilidade de REGISTRO das assinaturas eletrônicas.”

Tradução: Enfeitar o pacote conservador (com propostas copiadas do PT)

Plebiscitos e referendos são instrumentos históricos da democracia, previstos na Constituição, porém raramente praticados no Brasil. Hoje, quem tem poder convocá-los é o Congresso. A ideia de convocá-los por iniciativa popular consta do programa do PT desde os tempos em que Marina era filiada ao partido. O PT também propõe incentivar a proposição de leis por iniciativa popular.

Na campanha de 2010, Marina Silva recorreu ao plebiscito para se livrar de questões embaraçosas, como a descriminalização do aborto. Cuidado: plebiscito não é Doril, que se toma pra qualquer dor-de-cabeça. É para decidir sobre grandes questões nacionais, e não para lavar as mãos do governante que não tem coragem de assumir suas posições.

Itaú é o banco que mais demite


Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

A estreita relação da candidata Marina Silva com o banco Itaú tem chamado até mais atenção do que suas polêmicas propostas, como a de interromper a exploração do pré-sal ou reduzir drasticamente o papel do Estado na economia. Vale, pois, saber mais sobre o comportamento desse banco.

Para se ter ideia do papel do Itaú na campanha de Marina Silva, no dia 26 de agosto a equipe dela participou de reunião com um grupo de investidores brasileiros e estrangeiros e o evento foi bancado pelo Itau BBA, braço de investimentos do banco Itaú.

O Itaú, como se sabe, tem entre seus proprietários Maria Alice Setubal, a Neca, que produziu o programa de governo de Marina.

Questionado pela imprensa por ter feito o evento para promover Marina, o Itaú declarou que promoveu eventos parecidos com Eduardo Campos e Aécio Neves, mas não para Dilma Rousseff, o que mostra que não é Neca Setubal que está na campanha de Marina, mas o banco dela.

Diante disso, o Blog resolveu saber mais sobre o Itaú. Para tanto, foi ouvir a presidente do Sindicato dos bancários de São Paulo, Juvandia Moreira, baiana de Nova Soure. Juvandia chegou a São Paulo em 1990, cursou e se formou em direito e é pós-graduada em política e relações internacionais.

Recentemente, Juvandia foi reeleita presidente do sindicato com 82,11% dos votos válidos. Esse apoio expressivo a credencia a expressar o sentimento da categoria sobre a eleição presidencial.

Confira, abaixo, trechos da entrevista

Os bancários já têm uma preferência eleitoral majoritária e coesa ou esse é um assunto que ainda está sendo discutido pela categoria?

Os bancários de SP e os do Brasil inteiro mantêm a conferência nacional dos bancários e obviamente nós discutimos a eleição porque se trata do futuro do Brasil. Uma categoria como a dos bancários não pode se omitir, mas estou lhe dizendo da posição das pessoas e não uma posição oficial do sindicato, que não se pronuncia oficialmente sobre eleições.

Nós, bancários, fizemos, enquanto categoria profissional, reflexão do que estava em jogo, quais são os projetos que estão colocados e qual seria a nossa posição, e ela é a de apoiar a reeleição da presidenta Dilma. Por que? Porque antes dela e do presidente Lula o país estava submetido a um projeto neoliberal que estava piorando a vida do trabalhador, com desemprego, privatizações, inflação mais alta…

Nós tivemos, nos últimos 12 anos, um governo que promoveu uma política de aumento do nível de emprego, do valor dos salários e de inclusão social. Uma Política que consideramos benéfica ao trabalhador brasileiro porque, ao longo desse período, nossa categoria teve aumentos reais de salário e recuperação do nível de emprego.

Na década de 1990, nós não podíamos nem fazer greve por conta do desemprego alto. Com Lula e Dilma, tudo mudou.

Recentemente, você se reelegeu presidente do Sindicato dos Bancários de SP. Na sua campanha à reeleição, o tema sucessão presidencial constou de sua plataforma? Ou seja: quando você fala na sua posição política pessoal, o apoio à sua reeleição significa que a categoria bancária concorda com ela?

Nossa chapa foi reeleita com 82% dos votos. Então, a categoria bancária nos conhece, sabe das nossas posições políticas.

Qual é o contingente de bancários paulistas sindicalizados?

Nós temos 130 mil bancários, em São Paulo. Sindicalizados, incluindo aposentados etc., são mais de 60 mil. E se não fossem as demissões no setor nós teríamos muito mais associados ao sindicato. A rotatividade no setor impede que cresça mais o contingente de trabalhadores sindicalizados.

Você já me respondeu qual é a sua posição política e disse que tal posição é compartilhada ao menos pelos 82% da categoria que votaram em sua candidatura. Agora, estamos vendo uma ascensão muito forte da candidatura Marina Silva. Como os bancários enxergam a possibilidade de ela se eleger presidente?

Entendemos que o projeto de Marina não tem nem os mesmos compromissos do projeto de Dilma e tampouco condições políticas de implementar suas propostas, ainda que nós discordemos de grande parte dessas propostas.

Qual é a nossa crítica às outras candidaturas com chances na eleição? É o que essas candidaturas representam. No caso de Marina, inclusive, falta força política para realizar tanto o que apoiamos quanto o que não apoiamos em suas propostas.

Que medidas a Marina poderia tomar que você considera que seriam danosas? Por exemplo, a anunciada independência do Banco Central. Como é que os bancários veem uma medida dessas, que teria tanto impacto no setor de vocês?

Historicamente (desde 1992), os bancários têm uma posição contrária à autonomia do Banco Central. O governo tem que fazer política econômica e a autonomia retira dele essa possibilidade.

A independência do BC interfere no emprego ao interferir na política industrial, na política de câmbio. Aliás, nem nos Estados Unidos você tem um Banco Central independente.

O que você acha de Marina ter o banco Itaú dentro de sua campanha?

Acho que é o Itau que está na campanha de Marina, não só a sua dona. Todos têm lido as críticas públicas que o Itaú, enquanto instituição, faz ao governo e à política econômica da presidente Dilma.

Já faz mais de um ano que o economista-chefe do Itaú tem feito críticas à política econômica e tem oferecido “soluções” que propõem desemprego e recessão para combater a inflação, por exemplo.

Os bancos ganham com políticas de combate a inflação nos moldes que o itaú propõe porque essas políticas se baseiam quase exclusivamente em aumentar os juros que esses bancos cobram.

O Itaú foi multado pesadamente por sonegação de impostos e com a anuência do governo Dilma. Você acha que essa multa tem alguma relação com a posição política que o banco adotou?

Não sei se foi só por isso, mas é claro que a multa pesou. Mas é, também, porque o banco não gosta da política econômica de Dilma. Sobretudo a forte redução da taxa Selic até o ano passado, mesmo que depois tenha subido.

Por que o governo multou o Itaú em 18 bilhões de reais?

Por causa da fusão com o Unibanco. Nesse processo de fusão, em resumo, tem sonegação, tem cálculo errado dos impostos a pagar, mas cabe recurso da multa.

Um banco como o Itaú, que está tendo tanta influência na campanha eleitoral, que está bancando Marina Silva, como é que essa instituição se relaciona com os trabalhadores que contrata?

O banco que mais tem dado problema ao sindicato dos bancários nos últimos anos tem sido o Itaú por conta do grande número de demissões que fez. Se a gente olhar os últimos três anos, o Itaú eliminou 17 mil postos de trabalho. Em 2004, tinha 104 mil trabalhadores e tem hoje 87 mil. Isso apesar de o lucro que teve no primeiro semestre ter crescido 33% em relação ao mesmo período do ano passado. Foi o banco que mais demitiu.

Essa conduta do Itaú de demitir tanto é só dele ou é do sistema bancário?

Se você olhar os últimos anos, o Itaú foi o banco mais agressivo em termos de demissões. Repito: é o banco com o qual o sindicato mais teve problemas. E, depois do Itaú, o banco que mais demitiu foi o Santander.

A corrida ao Planalto no meio do tsunami


Por Anna Beatriz Anjos e Glauco Faria, na revista Fórum:

Nesta semana, o que já se prenunciava tomou forma. Se o Instituto Datafolha, antes mesmo da oficialização da candidatura de Marina Silva (PSB), apontava para seu crescimento nas intenções de voto no dia 18 de agosto, a pesquisa do Ibope divulgada na terça (26) veio evidenciar sua força eleitoral. Com menos de uma semana de campanha, a ex-senadora atingiu 29% de intenções de voto e conseguiu ultrapassar Aécio Neves (PSDB), que apareceu com 19%, além de praticamente se equiparar a Dilma Rousseff (PT), que ficou com 34%. Outro levantamento, realizado pelo Instituto MDA e encomendado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), reiterou o cenário.

Mas foi na sexta-feira (29) que os percentuais de Marina se mostraram ainda mais impactantes. O Datafolha indicava um empate entre a pessebista e Dilma, que têm 34 pontos, e uma queda mais acentuada de Aécio, que despencou para 15. Em um possível segundo turno, a pessebista superaria a petista por 50% a 40%. Pela primeira vez desde 1989 o PSDB está próximo de ficar de fora das duas primeiras colocações na disputa presidencial.

Irreversível ou não, a ascensão da ex-ministra de Lula é ameaçadora para todos os seus rivais, mas é devastadora para Aécio. Enquanto Dilma oscilou dois pontos, dentro da margem de erro, o peessedebista perdeu cinco, um quarto do seu potencial eleitorado em 11 dias. A candidata conquistou também parte dos brancos e nulos, que antes contabilizavam 8%, e agora são 7%; e os indecisos, que passaram de 9% para 7% das intenções de voto. Marina influenciou, ainda, o desempenho dos demais presidenciáveis, que, somados, perderam dois pontos.

A má notícia para Aécio é que o levantamento do MDA/CNT mostra que sua derrocada ainda pode continuar. Aproximadamente três quartos dos eleitores de Dilma (76,9%) e de Marina (74,1%) afirmam ter seu voto definido, índice que baixa entre os eleitores de Aécio (64,2%). Ele é apontado ainda como terceira possível opção entre os indecisos, que cogitam votar na ex-senadora (28,8%), na atual presidente (22,6%), com o tucano aparecendo em seguida, (20,7%).

“Muito do voto do Aécio é um voto anti-PT, anti-Dilma. Ela capta voto tanto dos descrentes, quanto dos antipetistas de maneira geral, inclusive dos tucanos convictos”, aponta Benedito Tadeu César, cientista político e diretor do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais. “Além disso, ao apresentar seu esboço de governo, até para diminuir a resistência do empresariado ela está se aproximando do ideário do PSDB. Então, é natural que uma boa parcela desse eleitorado, quando vê que seu candidato tem pouca chance, migre para ela”, finaliza.

Para o analista, a campanha do PSDB precisa trabalhar para tentar desconstruir a candidatura de Marina. “Tem que fazer isso de maneira muito bem feita, senão ela pode se tornar vítima, tanto pela morte de Eduardo Campos, como por sua postura histórica”, avalia. Ainda de acordo com César, a campanha de Aécio tem realizado pouco nesse sentido – concentra seus esforços em combater o PT.

Segundo Denilde Holzhacker, cientista política e professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a bandeira da mudança empunhada por Aécio não o torna uma alternativa à política partidária, da qual parcela do eleitorado se mostra tão descrente. “Ele até estava conseguindo, mas quando surgiu a questão da pista de Cláudio, passou a ser como todos os outros”, analisa. A cientista política acredita que, a partir momento em que as suspeitas começaram a ser levantadas, público passou a enxergar o tucano de outra maneira. “Ele não consegue ter credibilidade junto a esse eleitor que busca a mudança”, explica.

A grande diferença entre o tucano e Marina, nesse sentido, é que a criadora da Rede de Sustentabilidade parece estar acima de instituições ou estruturas partidárias, enquanto o neto de Tancredo ainda é visto como um político tradicional. “A ‘solução’ que o eleitorado está encontrando é apostar em um novo messias. Já ocorreu isto com Jânio Quadros, depois do ciclo varguista-juscelinista e do desenvolvimento e ascensão social ocorridos no período e do ‘mãe de lama’. Ocorreu também com Collor de Mello, depois da ditadura e da inflação desenfreada do governo Sarney. Tanto Jânio quanto Collor eram ‘salvadores da Pátria’ e iam acabar com a corrupção e governar com os ‘bons’”, comenta César.

Eleições de 2002: uma esperança para Aécio (e Dilma)?

Matéria da revista Época do dia 18 de agosto dizia que alguns líderes tucanos começavam a comparar as dificuldades encontradas por Aécio Neves nas atuais eleições com aquelas enfrentadas por José Serra em 2002. Diante de uma situação inédita como a que lançou Marina Silva à presidência, encontrar algumas referências é importante, mas é preciso ressaltar as semelhanças e diferenças entre os dois cenários.

Em 2002, José Serra defendia um governo impopular, o de Fernando Henrique Cardoso, que, logo após assumir seu segundo mandato em 1999, promoveu uma desvalorização cambial que afetou duramente a economia – elevou as taxas de juros em março do mesmo ano ao seu maior patamar histórico, 45%. E a taxa de desemprego, que chegou ao maior índice medido pelo IBGE em novembro de 1999, 8%, era a principal preocupação que rondava a cabeça dos brasileiros.

Serra fez uma campanha descolada do então presidente, apostando nos próprios méritos como ministro da Saúde, ou seja, algo muito distinto do que enfrenta Aécio hoje. A semelhança ocorre justamente quando se lembra que, em um dado momento da corrida ao Planalto, o candidato do PPS, Ciro Gomes, ultrapassou o tucano, apresentando quase o dobro de suas intenções de voto e se aproximando do então líder das pesquisas, Lula.

A “onda Ciro Gomes” teve início em junho, quando ele conseguiu sair de um patamar de 11%, em pesquisa Datafolha realizada no dia 7 de junho, para 28% em 30 de julho. Àquela altura, ficou em segundo lugar, 5% atrás de Lula e derrotando o petista na simulação do segundo turno, por 48% a 44%. No entanto, a partir do início do horário eleitoral gratuito, a candidatura do ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda do governo Itamar desmontou.

Como mostra este artigo do doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Yan Carreirão, “dentre os principais motivos para a queda, pode-se salientar: a campanha negativa de Serra (no 1º debate, em 4 de agosto e desde o início do HPEG, em 20 de agosto), mostrando afirmações de Ciro que não corresponderiam à verdade (o salário mínimo quando Ciro foi Ministro da Fazenda, em 1994, não teria sido de US$ 100 e Ciro não teria cursado apenas escola pública, como afirmava), de modo a associá-lo a uma imagem de mentiroso. A propaganda de Serra mostrava também declaração de Ciro chamando eleitores de ‘burros’, tentando associá-lo à imagem de destemperado; da mesma forma, houve declarações infelizes do candidato, especialmente quanto ao papel de Patrícia Pilar em sua campanha. Tudo isso contribuiu para minar sua credibilidade junto a parcela do eleitorado”.

A campanha negativa de Serra e o próprio comportamento de Ciro a receber os ataques levou sua candidatura ao patamar de 11,79% dos votos válidos nas urnas, menos da metade da votação do peessedebista e atrás também de Anthony Garotinho. Por enquanto, críticas a Marina Silva são pontuais, com a presidenta Dilma respondendo a declarações da pessebista e Aécio apelando para a falta de experiência administrativa. O jogo pesado fica a cargo das redes sociais, onde perfis e páginas conservadoras acusam Marina de ser “petista”, associando-a às figuras de Lula e Dilma. Adversários em geral abordam ainda temáticas como a questão do uso do jatinho da campanha do PSB, suas propostas ortodoxas para a economia ou o seu suposto fundamentalismo religioso. Nada, por enquanto, pegou.

A imagem, as contradições e o programa de Marina

Apesar de forte e bem construída, a imagem de Marina pode ser desgastada por meio das contradições de sua candidatura. Seu passado de luta pelas causas ambientais entra em confronto com seu vice, Beto Albuquerque (PSB), ligado ao agronegócio, e um dos pilares de seu discurso é a intenção de “unir o Brasil”, conversar com pessoas e não com partidos, e trazer para sua administração “os melhores” de cada legenda. Vale lembrar que, quando ministra de Lula, Marina era conhecida justamente pela falta de disposição para o diálogo.

Há ainda outros pontos a serem atacados pelos rivais. “Uma de suas fragilidades é a falta de experiência administrativa, [de conhecimento da] máquina pública”, indica Denilde Holzhacker. “Outro problema é a base. Ela começou com o PSB de forma complicada. Vai ter que articular mais do que fez até agora”, considera.

Antes mesmo da ex-senadora assumir oficialmente sua candidatura à presidência choveram críticas e questionamentos a seu respeito. Ela poderia representar entraves ao desenvolvimento econômico por conta das posturas adotadas quando esteve no governo Lula, também enfrentaria desconfiança por parte do agronegócio e mesmo de setores da elite econômica, que só enxergaria nela uma escada para garantir a existência de um segundo turno entre Dilma e Aécio. Além disso, suas posições religiosas seriam um obstáculo a mais para questões que encontram dificuldade para serem sequer debatidas no âmbito da política nacional, como os direitos da população LGBT e o combate à homofobia.

Em seu programa de governo divulgado na sexta-feira (29), a candidata parceia buscar responder a todos os questionamentos e ataques, surpreendendo pela assertividade. Entre os principais pontos estavam o apoio a propostas em defesa do casamento civil igualitário; articulação no Legislativo em prol da votação do PLC 122/06, que criminaliza a homofobia; compromisso com a aprovação do projeto de lei da Identidade de Gênero Brasileira que regulamenta o direito ao reconhecimento da identidade de gênero das pessoas trans e eliminação de obstáculos à adoção de crianças por casais homoafetivos.

Contudo, na manhã deste sábado (30), a candidata divulgou uma “nota de esclarecimento” fazendo referência somente ao capítulo LGBT. “Em razão de falha processual na editoração, a versão do Programa de Governo divulgada pela internet até então e a que consta em alguns exemplares impressos distribuídos aos veículos de comunicação incorporou uma redação do referido capítulo que não contempla a mediação entre os diversos pensamentos que se dispuseram a contribuir para sua formulação e os posicionamentos de Eduardo Campos e Marina Silva a respeito da definição de políticas para a população LGBT”, diz o texto, divulgando novos pontos a respeito do tema.”

Na “correção”, aparecem questões como “garantir os direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo”, quando o trecho divulgado ontem dizia: “Defesa do casamento civil igualitário, com vistas à aprovação dos projetos de lei e da emenda constitucional em tramitação, que garantem o direito ao casamento igualitário na Constituição e no Código Civil”. O termo “casamento” some na nova versão.

Em geral, os itens se tornam menos específicos. Naquilo que era uma referência direta ao kit do programa Escola sem Homofobia, que o governo Dilma desistiu de distribuir após pressão da bancada evangélica, o texto divulgado ontem defendia o combate ao “bullying, à homofobia e ao preconceito no Plano Nacional de Educação, desenvolvendo material didático destinado a conscientizar sobre a diversidade de orientação sexual e às novas formas de família”. A versão corrigida é genérica e diz: “Incluir o combate ao bullying, à homofobia e ao preconceito no Plano Nacional de Educação”, sem citar a elaboração de material didático.

Também consta no programa um aceno vivo ao mercado financeiro, como na crítica à ampliação da participação dos bancos públicos na concessão de crédito no Brasil, efetivada nos governos do PT. “Os subsídios ao crédito agropecuário e aos programas de habitação popular deverão continuar, mas com maior participação dos bancos privados, evitando subsídios não computados e ineficiências na alocação”, diz trecho do programa.

Para José Paulo Kupfer, em análise feita no jornal O Estado de S.Paulo, “há, nos pontos principais da política macroeconômica, uma clara convergência entre o exposto no programa de governo de Marina Silva e as diretrizes defendidas por Aécio Neves, que replicam ações empreendidas sobretudo no segundo mandato de FHC e formam o atual ideário econômico do PSDB”. Ele questiona como será possível conciliar as ações de princípios liberais com propostas na área social que exigem gastos públicos, como aumento de investimentos em Saúde e Educação e aumento do número de beneficiários do Bolsa Família. “Fica a impressão de que, se papel aceita tudo, papel com programas eleitorais aceitam ainda mais. Diante da austeridade fiscal proposta, nem mesmo um crescimento em escala chinesa desde o início de seu governo permitiria fechar a conta”. São contradições que Marina terá que responder no debate que promete esquentar nos próximos dias.

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As impressões do primeiro debate

Esta semana trouxe outro elemento para acirrar os ânimos da corrida ao Palácio do Planalto: o primeiro debate entre os candidatos. Promovido pela TV Bandeirantes, na última terça-feira (26), o evento confrontou, durante três horas, os sete concorrentes cujos partidos têm representação no Congresso Nacional: além de Dilma, Aécio e Marina, participaram Eduardo Jorge (PV), Luciana Genro (Psol), Pastor Everaldo (PSC) e Levy Fidelix (PRTB).

A grande surpresa da noite foi Eduardo Jorge. Nas pesquisas, ele não emplaca: tanto o Ibope, quanto o Instituto MDA e o Datadolha revelam que ele não atinge nem 1% das intenções de voto. Mas, na afronta aos outros presidenciáveis, levantou temas polêmicos, como o aborto: “O senhor concorda com que 800 mil mulheres sejam tratadas como criminosas por interromper a gravidez?”, perguntou a Aécio Neves em um dos confrontos diretos. Seu comportamento irreverente – chegou até a ser comparado a Plínio de Arruda Sampaio, o showman das eleições de 2010 – o transformou em memes pela internet. Sua página no Facebook, que antes do debate era curtida por cerca de duas mil pessoas, ganhou mais de 20 mil fãs.

Embora tenha roubado a cena, quem se saiu melhor para o eleitor não foi Jorge. “Quem surpreendeu foi a Marina. Ela deu respostas mais incisivas, contundentes”, avalia Denilde Holzhacker, referindo-se às ofensivas de Silva em relação a seus oponentes, sobretudo, à Dilma. Na tentativa de desqualificar o discurso da petista, ela criticou a forma com que descreve a realidade brasileira: “Esse Brasil colorido e cinematográfico de que a presidenta fala não existe. Há descrença na política. Não existe mudança política, que virou troca de ministros e de tempo de televisão. Nós vivemos uma situação de penúria na saúde e na educação”.

Marina atacou ainda o método de gestão da presidenta, chamando-a de “gerente”. “Um dos graves problemas da gerência é ver o Estado refém, um toma-la-dá-cá de favores”, declarou. Aos olhos do eleitor, essa postura de ataque pareceu coerente.

Dilma Rousseff adotou postura mais defensiva. “Ela estará sempre em desvantagem nos debates. Pelo fato de ser governo, é alvo de todos. Tem que enfrentar os outros seis, não tem nenhum aliado, são todos contra”, considera Benedito Tadeu César. Para ele, no entanto, a presidenta estava munida de números e conseguiu expor os feitos de seu governo. “Ela não é uma figura simpática. Dentro das circunstâncias, se saiu muito bem. Não cometeu nenhuma gafe. A resposta da Petrobras me pareceu boa”, explica, aludindo ao embate com Aécio Neves.

Já o tucano, apesar da capacidade retórica e de articulação, poderia ter sido mais direto em suas propostas. “Dos três, Aécio foi o candidato que mais decepcionou”, destaca Holzhacker. “Justamente porque ele precisava ter uma postura mais parecida com a da Marina, assumindo o discurso de que é a liderança mais apta a conduzir o país.” Segundo a cientista política afirma, o peessedebista acertou em alguns momentos, como na defesa do governo de Fernando Henrique Cardoso. Ainda assim, faltou contundência. “Não tenho certeza se o eleitor conseguiu captar o que ele será como presidente”, pontua.